quinta-feira, 14 de maio de 2015

Coleccionismo – paixão ou obsessão?

Para muitas pessoas, o conceito de coleccionismo é algo com que cresceram. Falando na primeira pessoa, basta-me recordar o início da década de 90 quando não era raro ver os mais diversos produtos a tentarem-nos convencer a comprá-los para que pudéssemos coleccionar algo. Entre os autocolantes que vinham com os Bollycao, aos tazos que acompanhavam os pacotes de batatas fritas, lá íamos alimentando as nossas colecções (e estômagos). Apesar destas colecções serem bem mais populares, uma “elite” por entre os coleccionadores mais novos lidava já com coisas mais sérias e, normalmente com a ajuda de um familiar mais velho, lá se iam dedicando ao coleccionismo de moedas – numismática – ou de selos – filatelia.

No entanto, se o coleccionismo daqueles objectos parece poder acompanhar a vida de uma pessoa, na transição da sua infância para a idade adulta, passando, evidentemente, pela adolescência e juventude, outros há que parecem não merecer o mesmo respeito dos pares. É, por exemplo, o caso dos brinquedos, coleccionáveis de filmes, livros de banda desenhada, entre outras coisas.

No entanto, será que coleccionar estes objectos pode ser interpretado como sintomático de um qualquer complexo de Peter Pan, de quem se rejeita a crescer e assumir responsabilidades? A experiência pessoal tem-me demonstrado o contrário. Além de eu próprio ser um coleccionador – tendo-me “especializado” nos últimos anos em coleccionáveis ligados à Saga Star Wars (uma colecção que, devo dizer, é bastante humilde) – tenho conhecido coleccionadores ligados às mais diversas áreas, sendo muitos deles até polivalentes no que ao tema das suas colecções diz respeito, e quase no seu todo, este grupo é composto por pessoas bastante capazes, responsáveis e equilibradas. Apesar de estar a falar de pessoas vindas dos mais diferenciados extractos sociais e com coleccionáveis bem diferentes – desde as figuras de qualidade da SideShow cujos preços rondam normalmente as centenas de euros, aos “carrinhos” da Hot Wheels, não esquecendo os famosos Lego – estamos perante homens e mulheres que, abraçando embora a fase da vida em que se encontram, não ignoram a ligação a um passado que, por um ou outro motivo, os continua a cativar. Assim, temos homens adultos que continuam a coleccionador figuras de acção – embora a maior parte das pessoas os chame de brinquedos – não esquecendo no entanto que está na altura de tratar do IRS ou de ir ver se o banco sempre irá aplicar a taxa negativa no empréstimo à habitação. Desde que praticado na medida certa, não colocando nunca em causa as finanças pessoais e familiares, o coleccionismo é um gosto tão válido como outro qualquer, já que decorre de uma escolha pessoal do coleccionador e cujo investimento não só pode não representar um mero gasto (como o que se prende com outros gostos pretensamente adultos), como vir a representar um investimento de facto com a valorização do coleccionável adquirido.

Evidentemente que o que motivará a maior parte dos coleccionadores não é esta possibilidade de lucro, mas sim o gosto pelo objecto – alguns poderão mesmo chamar-lhe um fetiche do objecto – que se concretiza na sua aquisição e muitas vezes exposição. Por isso mesmo, da próxima vez que alguém estiver numa caixa do supermercado à sua frente e quando questionado se o conjunto da Lego ou a figura das Tartarugas Ninja que leva é para embrulhar disser que não, já que é para o próprio, não o julgue. Pergunte-se é a si mesmo se na verdade não haveria uma colecção que o pudesse deixar a si mais feliz. 

Mário R. Cunha

Sem comentários:

Enviar um comentário